Saúde viral e a doença do engajamento
Atualizado: 30 de mai.
Conteúdos apelativos ganham espaço e impulsionam a desinformação em saúde
Nos dias atuais, influenciadores digitais estão cada vez mais presentes nas vidas das pessoas. Com diversas vertentes e pautas existentes no cotidiano da sociedade, existem também influenciadores que tratam a saúde como tema principal de suas redes, eles oferecem dicas, divulgam produtos ou até mesmo dão “diagnósticos” para seus seguidores. De forma rápida, esses profissionais da era digital se tornaram parcela majoritária do algoritmo de cada indivíduo, entregando conteúdos e pautas que ocupem o maior tempo possível do destinatário final. Dentro desse meio, há influenciadores com diferentes objetivos e estratégias para a atração de público e fama, desse modo, há também aqueles que não medem esforços e nem consequências para atrair as atenções para si, visam somente o lucro e o sucesso, sem se importar com as consequências prejudiciais à vida e saúde de seus seguidores.
Para a pesquisadora, mestre em imunologia e doutora em biociências e fisiopatologia, Letícia Sarturi, existem certas vantagens quando esses influenciadores estão, de fato, do lado da ciência, colaborando com a disseminação de informações verdadeiras e confiáveis, exercendo a função que estava restrita aos grandes veículos de comunicação. Porém, ainda de acordo com a doutora, essa “explosão de influencers da saúde” produz uma severa onda de desinformação para a população, que segundo ela, detém um baixo interesse e letramento científico, o que prejudica a verificação das informações vistas na internet. Ela ainda destaca outras causas pelas quais a população está vulnerável a acreditar em notícias e conselhos equivocados: “Nós temos outros fatores como, culturais e sociais, fatores relacionados até à própria religião, que estão envolvidos na decisão às vezes de acreditar, de ter crenças em informações falsas sobre saúde, então são uma série de fatores” afirma Letícia.
Como a informação saiu do controle
A comunicação evoluiu com o passar do tempo, antes, o que era noticiado apenas de forma oral, passou a ser escrito em jornais impressos, e depois de um tempo, chegou o rádio para estar mais próximo do dia a dia das pessoas. Com a chegada da televisão, as notícias se tornaram mais compreensíveis e acessíveis. Já com a internet, as redes sociais se transformaram no principal meio de comunicação e informação para a sociedade e, se tornaram também numa ferramenta perigosa para a integridade e veracidade das informações passadas por esse meio. A comunicação no ramo da saúde não é diferente, com o passar do tempo, as informações e instruções sobre bem-estar e uma vida mais saudável se tornaram mais acessíveis para todos, porém, com a evolução de redes mais amplas, a população se tornou mais vulnerável em relação às chamadas “fake news”, como destaca a doutora Letícia: “É óbvio que há uma maior exposição à desinformação nas redes sociais, ou seja, tem muito mais desinformação hoje em dia do que tinha antigamente, essa exposição excessiva amplia a dificuldade das pessoas entenderem o que é uma informação verdadeira e o que é uma informação falsa.” evidencia a cientista.
O ambiente perfeito para a desinformação circular
Esse fenômeno está inserido no que estudiosos definem como “ecossistema midiático”. O conceito utiliza a ideia de ecossistema como metáfora para explicar o funcionamento das mídias digitais: ambientes dinâmicos, em constante transformação e compostos por diferentes agentes que interagem entre si, influenciando comportamentos, opiniões e formas de consumo de informação. Nas redes sociais, algoritmos, influenciadores, plataformas e usuários atuam simultaneamente na circulação de conteúdos, criando comunidades virtuais que compartilham interesses, crenças e narrativas em comum.
Dentro desse contexto, o livro “Desinformação”, do pesquisador Dan Ariely, apresenta o conceito do “Funil da Falácia”, teoria que explica como indivíduos podem ser gradualmente atraídos para conteúdos enganosos e teorias conspiratórias. Segundo o autor, esse processo acontece em quatro etapas progressivas, nas quais fatores emocionais, cognitivos, pessoais e sociais contribuem para consolidar a crença em informações falsas.

Obra "Desinformação" do escritor Dan Ariely | Reprodução/Linkedin: Dan Ariely
O caminho que leva alguém a acreditar em uma mentira
O primeiro estágio envolve os elementos emocionais. Emoções como medo, ansiedade, insegurança e estresse funcionam como portas de entrada para a desinformação. Em momentos de vulnerabilidade emocional, as pessoas tendem a buscar respostas rápidas e conteúdos que tragam sensação de controle ou segurança, tornando-se mais suscetíveis a mensagens alarmistas ou sem comprovação científica.
Na sequência, entram os elementos cognitivos. Após o impacto emocional inicial, o indivíduo passa a procurar informações que confirmem aquilo que já sente ou acredita. Nesse processo, conteúdos que reforçam suas percepções ganham prioridade, enquanto informações divergentes são ignoradas. A lógica dos algoritmos das redes sociais intensifica esse comportamento, já que plataformas tendem a recomendar conteúdos semelhantes aos que o usuário já consome.
O terceiro estágio envolve os elementos de personalidade. Características individuais, como necessidade de pertencimento, busca por padrões ou baixa tolerância à dúvida, podem aumentar a vulnerabilidade à desinformação. Pessoas com menor hábito de checagem ou menor interesse em verificar fontes confiáveis tornam-se alvos mais fáceis para conteúdos manipulativos e sensacionalistas.
Por fim, os elementos sociais consolidam o chamado “funil da falácia”. Nesse estágio, o indivíduo passa a conviver majoritariamente em grupos que compartilham as mesmas opiniões e crenças, criando as chamadas “bolhas sociais”. Nessas comunidades, informações circulam sem questionamento e são constantemente reforçadas pelos próprios participantes. Um exemplo recorrente são grupos fechados em aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, onde notícias falsas são compartilhadas rapidamente entre pessoas que já possuem visões semelhantes, fortalecendo ainda mais a disseminação da desinformação.
Quando a mentira vira estratégia
Segundo reportagem publicada pelo portal de notícias G1, o conceito de “Ecossistema da Desinformação”, analisado pela socióloga e chefe do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas, Leda Gitahy, evidencia que a circulação de conteúdos falsos nas redes sociais atende a diferentes interesses econômicos, ideológicos e políticos. De acordo com a pesquisadora, a produção de desinformação utiliza estratégias semelhantes às do marketing digital para alcançar grandes públicos, explorando emoções, comportamento de consumo e mecanismos de engajamento das plataformas. Nesse cenário, notícias falsas deixam de ser apenas conteúdos isolados e passam a integrar uma estrutura organizada, pensada para gerar visibilidade, compartilhamentos e influência sobre a opinião pública.
A lógica de funcionamento das redes sociais contribui diretamente para esse processo. Diferentemente do jornalismo tradicional, que prioriza critérios como apuração e verificação dos fatos, plataformas digitais operam com base no engajamento gerado pelas publicações. Curtidas, comentários, compartilhamentos e tempo de retenção passaram a ser os principais indicadores para ampliar o alcance de um conteúdo, independentemente de sua veracidade. Com isso, publicações sensacionalistas, alarmistas ou emocionalmente apelativas tendem a alcançar maior repercussão, criando um ambiente favorável para a propagação da desinformação, especialmente na área da saúde.

Para o médico e influenciador digital Cadu Viterbo, que reúne mais de 190 mil seguidores nas redes sociais e produz conteúdo voltado ao combate às fake news, o próprio funcionamento das plataformas impulsiona a circulação de conteúdos enganosos. “As redes sociais funcionam baseadas em engajamento: ‘clicks’, retenção de atenção, comentários e compartilhamentos. Não em conteúdo, veracidade da mensagem ou validade técnica. Por isso, conteúdos virais e sensacionalistas têm mais apelo emocional e recebem maior atenção. As redes privilegiam esse tipo de conteúdo e, por isso, a desinformação tem maior alcance. A verdade, não. A ciência não tem resposta fácil, não tem solução mágica e nem seduz tanto pelo apelo emocional”, afirma o médico.
A fala do especialista evidencia um dos principais desafios enfrentados pela divulgação científica no ambiente digital: competir com conteúdos simplificados e promessas imediatas que despertam emoções intensas no público. Enquanto a ciência exige tempo, análise e comprovação, influenciadores que promovem soluções rápidas e discursos alarmistas conseguem maior alcance e visibilidade nas plataformas. Nesse contexto, a saúde se transforma não apenas em tema de interesse público, mas também em produto de consumo dentro da lógica dos algoritmos e da monetização digital.
As fake news que mais colocam vidas em risco
Nas redes sociais há diversos tipos de desinformação sobre saúde, sendo os principais contra a vacinação. Em grupos e comunidades online, a circulação de notícias fantasiosas e perigosas têm o poder de colocar em risco a saúde pública de todo o país, uma vez que informações falsas como dizer que a vacina de COVID-19 é a culpada pelo aumento de casos de ataque cardíacos, infartos ou mortes súbitas, levam uma parcela da população a acreditar e deixar de se imunizar contra diversas outras doenças perigosas e não somente contra COVID-19. Segundo levantamento do Laboratório DesinfoPop/FGV, publicado pelo Ministério da Saúde no Portal Gov, o Brasil concentra 40% de todo o conteúdo antivacina existente na América Latina e Caribe, um número alarmante para a saúde da população brasileira.
Outra fake news muito divulgada e ofertada por influenciadores, é o método de conquistar o “corpo perfeito” através da compra de suplementos e outros medicamentos. Diversos influenciadores, sobretudo os chamados “bodybuilders”, mostram suas rotinas de treinos e produtos que utilizam para manter um corpo esteticamente “perfeito” e dentro dos padrões de músculos bem definidos, muitos deles também incentivam jovens a utilizar esteróides e fazer dietas radicais com a narrativa de manter o foco e disciplina em treinos, para alcançar objetivos estéticos.
“A bolha wellness/fitness retroalimenta um mercado bilionário que estimula uso de drogas, transtornos alimentares, procedimentos e obsessão estética e performance embalado em saúde. Com a capa bonita, jovens normalizam dietas restritivas, uso de substâncias como anabolizantes, todo tipo de suplemento e manipulados.” comenta doutor Cadu Viterbo. Dados do Instituto do Coração (Incor) revelam que, em um recorte de 976 casos de de infartos em jovens, 7% eram usuários de anabolizantes. Já a Associação Paulista de Medicina (APM), em 2024, divulgou uma pesquisa observacional dinamarquesa que aponta que o uso desse tipo de substância aumenta em 2,8 vezes o risco de morte, em comparação a pessoas que se exercitam sem utilizar esses produtos.
Já nos últimos anos, as canetas emagrecedoras foram o instrumento que se destacou como produto perigoso ofertado por influenciadores nas redes sociais. Pessoas vendendo essa ferramenta médica, sem a prescrição devida, como um milagre para o emagrecimento, também focando na realização do sonho do “corpo perfeito”. Segundo o portal G1, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), investiga 65 mortes suspeitas e 2.436 notificações de casos associados ao uso de canetas emagrecedoras no Brasil entre 2018 e 2025, deste número total, 6 óbitos e 145 casos suspeitos envolvem o desenvolvimento de pancreatite (inflamação no pâncreas).
“As redes alimentam um padrão estético como sinônimo de sucesso, felicidade, disciplina e valor. Essas drogas entram como atalho, como o caminho para a ilusão da felicidade ou da realização, validada por likes e views, que atinge principalmente jovens e pessoas emocionalmente vulneráveis, que já convivem com baixa autoestima, pressão estética ou transtornos alimentares. Quando um influenciador mostra apenas o “antes e depois”, sem discutir riscos, efeitos adversos, critérios clínicos e acompanhamento adequado, ele transforma uma medicação séria em produto de consumo. A obesidade é uma doença complexa, multifatorial e crônica. Reduzir o tratamento a uma promessa de emagrecimento rápido banaliza tanto a doença quanto os próprios medicamentos. Isso favorece uso indiscriminado, frustração, efeito sanfona e, em muitos casos, adoecimento físico e psicológico.” explica Cadu Viterbo.
Quando seguir pode custar a saúde
As consequências da desinformação na saúde ultrapassam as telas dos celulares. Elas impactam decisões médicas, colocam vidas em risco, incentivam práticas perigosas e enfraquecem políticas públicas de prevenção e vacinação. Em um ambiente digital onde qualquer pessoa pode se tornar referência para milhões, cresce também a necessidade de responsabilização sobre aquilo que é divulgado. Afinal, quando a busca por engajamento fala mais alto do que a ciência, o custo pode ser medido não apenas em visualizações, mas em doenças, desinformação e até perda de vidas.
Em meio à velocidade das redes sociais, conteúdos simplificados e emocionalmente apelativos encontram maior espaço e alcance do que informações baseadas em evidências científicas. Enquanto especialistas dedicam anos à pesquisa e à comprovação de dados, influenciadores sem formação adequada conquistam credibilidade por meio da proximidade com o público e da promessa de soluções rápidas para problemas complexos. Nesse cenário, a saúde deixa de ser tratada exclusivamente como questão de interesse público e passa a integrar uma dinâmica de consumo, monetização e disputa por atenção nas plataformas digitais.
Diante desse contexto, combater a desinformação não depende apenas da atuação de profissionais da saúde ou das plataformas digitais, mas também do desenvolvimento do pensamento crítico e do letramento científico da população. A capacidade de questionar informações, verificar fontes e compreender os riscos de conteúdos sem embasamento se torna fundamental em uma sociedade cada vez mais conectada. Em um ambiente onde a influência digital possui impacto direto sobre comportamentos e escolhas individuais, a responsabilidade sobre aquilo que é compartilhado nunca foi tão necessária.
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