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O lado obscuro dos influenciadores fitness

Doutor Algoritmo
25 de mai.
2 min de leitura

Nas redes sociais, “saúde” muitas vezes aparece como promessa rápida. Em poucos segundos, um vídeo sugere que seu corpo está “inflamado”, que o metabolismo “travou” ou que existe um “detox” capaz de resolver tudo. Esse tipo de conteúdo cresce porque fala com ansiedade, vergonha e urgência, e porque o algoritmo tende a premiar o que gera reação, não o que é mais preciso. A própria Organização Mundial da Saúde descreveu esse ambiente como “infodemia”, uma avalanche de informações que dificulta encontrar orientação confiável e pode levar a decisões arriscadas.


O ponto central nem sempre é uma mentira explícita, mas o modo como a mensagem é vendida. Uma dica vira “protocolo”, um relato pessoal é “prova”, e a estética de corpo perfeito segue como argumento de autoridade. Em muitos casos, a publicação também é publicidade, com cupom, link ou comissão, só que isso nem sempre fica claro para quem assiste. Nos Estados Unidos, a FTC processou e fechou acordo com a empresa Teami em 2020, acusando a marca de promover chás “detox” com promessas de emagrecimento e alegações de saúde sem evidência científica confiável, além de usar influenciadores com divulgação paga pouco visível no Instagram.


Há exemplos parecidos no mercado de bem-estar que viraram caso jurídico. Em 2018, a empresa Goop aceitou um acordo de US$ 145 mil depois que promotores na Califórnia apontaram alegações de benefícios à saúde sem respaldo científico confiável em produtos promovidos como “terapêuticos”.


No Brasil, o limite legal também existe, mas é frequentemente testado no marketing. A Anvisa define suplemento alimentar como produto para ingestão oral destinado a suplementar a alimentação de indivíduos saudáveis, e não como tratamento de doenças, conforme a RDC nº 243/2018. A agência já alertou que suplementos não podem prometer prevenir, tratar ou curar problemas de saúde, e cita como irregulares anúncios que prometem emagrecimento, aumento de massa, melhora estética ou efeitos terapêuticos.


Um exemplo que ilustra bem como a desinformação em saúde ganha escala quando vem embalada por fama aconteceu com a influenciadora Maíra Cardi. Em entrevistas e conteúdos nas redes, ela afirmou que seria possível fazer uma “modulação epigenética” antes da gravidez, mudando a alimentação por seis meses para “zerar a genética” de doenças e, assim, reduzir ou eliminar o risco de o filho herdar predisposições como câncer e diabetes. A reação veio de instituições científicas, a Sociedade Brasileira de Genética publicou uma nota dizendo que dietas saudáveis são importantes para qualidade de vida, mas não “eliminam genes deletérios” nem apagam riscos genéticos dos descendentes, e classificou esse tipo de afirmação, sem base e sem consulta a especialistas, como um desserviço que pode afastar famílias de orientação médica e aconselhamento genético.


Este blog nasce para investigar esse ecossistema com método jornalístico e linguagem simples. A pergunta não é só “funciona?”, mas “quem lucra com a promessa?”, “qual é a evidência?”, “o que a regra permite?” e “quais sinais indicam risco?”.

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